Quando eu percebi que, parada na estação de Botafogo esperando meu ônibus passar, a minha espera na verdade, era pra ver você virando a esquina, sozinho, era maior que a de chegar em casa, assumi que estava apaixonada. Porque antes eu tinha a consciência de que isso podia acontecer, e percebia que ia aumentando, mas achava que quanto mais eu adiasse, menos eu me encantaria. E não é que foi o contrário? Só sei que agora estou angustiada. Pricipalmente depois desse dia, recheado de traições. Acordei traindo os amigos distantes, traí minha família ao final da tarde, e durante toda a noite li e assisti traições amorosas. E sabe que eu não me senti culpada? Logo eu, que sempre disse não suportar traição. Mas acontece que hoje eu vi que talvez qualquer saída que eu procure seja uma traição. Pensei primeiro que você poderia trair uma convicção e opção sua, bem moderninha, dessa sociedade pós-contemporânea- talvez uma das mais antigas- e eu trairia tranquilamente uma convicção minha, super careta, tão antiga quanto a sua. Se isso acontecesse, viveríamos um desses casos proibidos, secretos, com cenários vulgares, trilha sonora melosa, beijos calorosos, apertos, gemidos e muito lirismo. Trocaríamos juras e declarações de amor sem assumi-las, teríamos crises de ciúme e ficaríamos desesperados para disfarçá-las sem conseguir. Tentaríamos ser informais, manter essa casualidade, mas no final, assumiríamos que a paixão virara amor. Há uma grande chance desse amor não ser vivido na realidade, porque chegaria o momento em que pediríamos perdão às nossas convicções, ou simplesmente voltaríamos à elas sem que nada tivesse acontecido. Mas para mim pouco importa; teríamos vivido nosso caso, teríamos nos envolvido profundamente, e como em todo reencontro depois de anos, perceberíamos que fomos e somos importantes um na vida do outro, que não podemos viver nossas vidas separadamente, mas que seríamos cúmplices, e não amantes. Me agrada muito toda essa fantasia. Já fui lhe encontrar tantas vezes imaginando palavras e atitudes suas tão alarmantes, de tirar o fôlego, que quando penso nessa fantasia, nessa possibilidade dela um dia acontecer fico mais aliviada. “Acho que na próxima vez...”; e assim, meço e calculo, como uma exímia engenheira, todas as minhas ações, minhas falas, minhas roupas, meu perfume, até a minha rotina para chegar no resultado “eu e você, nós”. Estou tomada por você. Meu armário tem seu cheiro, minha pele tem seu cheiro, minha casa tem seu cheiro. Acho que eu quero ser o seu cheiro. Esse bem suave, que lhe agrada guardar no seu armário, nas suas roupas, na sua casa, na sua pele. Esse cheiro que lhe remete a floresta, as suas maneiras, e todo o resto que lhe compõe; feito uma música, assim como a minha, que na verdade é nossa. É assim que sinto essa traição. E se trair é isso, é negar tudo aquilo que me impede de tentar, de viver, de lhe conhecer por completo, então eu quero. Assumo que a minha personalidade é traidora, traiçoeira. Assumo que só sou confiável quando o assunto é traição. Assumo que só sou verdadeira, eu mesma, na minha essência, porque traí as convenções, as convicções, porque traí o óbvio, porque traí a minha consciência. Traí sim, porque percebi que tudo isso era bobagem, desnecessário. Porque se não o fizesse enlouqueceria. Porque senão trairia você, o motivo de toda a minha loucura, de todo o meu desejo, de todo o meu alívio, de toda a minha traição.
Em 23/11/08 por volta das 23h
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